
Acompanhamos
Scott Lang (Paul Rudd), um ladrão recém saído da prisão que tenta viver
honestamente, mas seus esforços são sempre frustrados por seu passado
criminoso. Sua sorte muda quando ele é abordado pelo misterioso Hank Pym
(Michael Douglas) um super-herói que está fora de ação a décadas e pede a ajuda
de Scott para roubar sua partícula de encolhimento que foi replicada por Darren
Cross (Corey Stoll), antigo pupilo de Pym, que planeja vendê-la aos militares
para que usem como arma.
A
narrativa é menos aquilo que se espera de um tradicional filme de super-herói e
mais próxima de um heist movie (ou
filme de roubo) nos moldes de Onze Homens
e Um Segredo (2001) ou Uma Saída de
Mestre (2003). Isso implica em um filme um pouco mais lento, com seu início
e meio mais voltados para o estabelecimento, planejamento e treinamento para o
golpe e clímax voltado para a execução do roubo e os imprevistos que costumam
ocorrer. Isso não é um problema, de modo algum, mas aqueles que esperam uma
trama mais focada na ação poderão se decepcionar um pouco.
Mais do que um filme sobre roubos ou sobre
super-heróis, é um filme sobre relações entre pais e filhos. Há um paralelo
claro entre Lang e Pym, já que ambos buscam corrigir erros do passado e se
reaproximar de suas filhas. Do mesmo modo, há também um relação quase que
paternal e problemática entre Pym e o vilão Cross, que o vê como um pai que lhe
ignorou e agora decide provar seu valor ao arruiná-lo. Michael Douglas faz seu
Hank Pym como um homem cheio de ressentimento pelo passado e por algumas
escolhas que fez, com um pesar tão profundo que constantemente transforma suas
frustrações em raiva, além disso a maquiagem digital que rejuvenesce o ator no
início do filme é possivelmente o uso mais convincente desse tipo de efeito.
Já
Paul Rudd traz sua habitual persona
boa-praça para Scott Lang, que torna fácil simpatizar com ele, e um ótimo timing cômico em seus diálogos. O
problema é que o filme se esforça além da conta para que jamais vejamos Scott
sob uma luz negativa, justificando inclusive seu crime sob uma espécie de
vigilantismo ao estilo Robin Hood, o que tira um pouco do peso e da força
dramática de seu arco enquanto personagem, já que ao invés de vermos a evolução
de um sujeito de criminoso a herói, abandonando sua ganância, egoísmo ou
irresponsabilidade em nome de um bem maior, vemos um sujeito que já tinha uma
personalidade altruísta e relativamente heróica confirmar a impressão que
tínhamos dele. Se o primeiro caso resultaria em um personagem complexo e cheio
de conflitos internos, o segundo, que é o que assistimos, nos traz um sujeito
carismático e gente boa, mas nada além disso.
Outra
questão é que o relacionamento entre ele e Hope Van Dyne (Evangeline Lilly), a
filha de Pym, parece acontecer por pura conveniência do roteiro, tudo bem que o
filme nos dá razões para que ela supere sua birra inicial com o personagem e
passe a vê-lo como alguém digno do legado pai, mas daí para um envolvimento
romântico há uma lacuna que o filme simplesmente não preenche. Na verdade, boa
parte das relações entre os personagens se desenvolve de modo relativamente
apressado, como a resolução do conflito entre Hope e Pym, provavelmente pela
insistência do filme em inserir cenas que parecem mais voltadas para se
comunicar com o resto do universo cinematográfico Marvel do que efetivamente
enriquecer a narrativa do próprio filme, um problema que já tinha apontado no
último filme dos Vingadores e que já vem acontecendo desde a "fase 1"
do estúdio.
Claro que é bacana ver Scott interagindo com um dos Vingadores e
isso serve para um gancho para a Guerra Civil em uma das cenas pós-créditos,
mas nada disso era realmente necessário para a jornada de Scott, Pym ou Hope. Aliás, se Evangeline Lilly não fosse tão eficiente em evocar a mágoa de Hope em relação ao pai, poderia facilmente ter tornado a personagem chata ou caricata, já que ela tem pouco espaço para realmente desenvolver a Hope.
Corey
Stoll se esforça para dar alguma personalidade a Darren Cross, inclusive com
certa dimensão edipiana na relação entre ele e Pym, mas é sabotado por um texto
que jamais permite que ele saia do clichê do "cientista
megalomaníaco", resultando em mais um vilão pobre e unidimensional no
universo cinematográfico da Marvel. Merece destaque, no entanto, o trabalho do
ator Michael Pena como o hilário parceiro de crimes de Scott, um papel que teria
caído fácil nas mãos de John Leguizamo se estivéssemos nos anos 90, que rouba a
cena sempre que aparece.
As
cenas de ação são bem curiosas por explorar esse universo diminuto do
personagem, normalmente recorrendo a movimentos de câmera vertiginosos para nos
trazer a sensação de amplitude experimentada pelo personagem, bem como o uso
preciso da montagem para extrair comicidade ao contrapor as climáticas cenas de
ação encolhidas com a perspectiva "normal" e menos grandiosa dos
eventos. Acerta também ao apresentar um clímax que é mais pessoal para o
protagonista, ao invés de entregar mais uma grande batalha generalizada com
centenas de capangas e todo esse excesso que se tornou quase que obrigatório em
filmes de super-heróis, como acontece em no descartável Thor: O Mundo Sombrio (2013), o fraco Homem de Ferro 3 (2013) e mesmo o bacana Capitão América 2: O Soldado Invernal (2014), que encerram com
enormes e burocráticas batalhas que não eram realmente necessárias. Apesar de
bem divertido e insólito, a ação não chega a surpreender e encantar como
deveria, talvez por nunca abraçar completamente as possibilidades alopradas dos
poderes do herói, como acontece na breve e lisérgica cena no plano subatômico.
Assim
sendo, Homem-Formiga é uma aventura
leve e divertida que traz boa parte dos mesmos acertos e erros que nos
acostumamos a esperar dos filmes da Marvel.
Nota: 6/10
Obs: Há uma cena adicional no meio dos créditos e outra
no final.
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