segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Crítica – Diya

 

Análise Crítica – Diya

Review – Diya
Um bom final muitas vezes nos faz perdoar algumas falhas do filme pelo impacto que causa ou pelo modo como recontextualiza muito do que vimos. De certa forma é isso que acontece com Diya, produção de Chade que em muitos momentos parece não conseguir entregar o que promete, mas redime parte de seus problemas com sua reviravolta final.

Lei de talião

A narrativa se passa em Jamena, capital de Chade, país da África central, e é centrada no motorista Dane (Ferdinand Mbaissané). Um dia Dane acidentalmente atropela uma criança, prestando socorro e se dispondo a pagar as despesas médicas da criança. Quando o garoto vem a óbito, Dane é preso por homicídio culposo. A família do menino morto, porém, evoca a Diya, um código de conduta do local que exige retribuição pelo sangue derramado, cobrando de Dane cinco milhões de francos como reparação pela morte do garoto. Se ele conseguir, o crime é considerado reparado e não vai a julgamento. Com a perspectiva de evitar a cadeia e não se afastar da esposa grávida ou do filho que está prestes a nascer, Dane inicia uma corrida contra o tempo para juntar o dinheiro no prazo dado de duas semanas.

O filme analisa os costumes locais e os problemas em ter uma sociedade na qual a retribuição é cobrada de maneira implacável. Dane tem que pagar essa dívida de sangue, mas perde seu emprego e quaisquer outros meios para conseguir dinheiro por conta própria. Mesmo o auxilio de sua vila, que tenta levantar o dinheiro mais por senso de dever do que por simpatia ao protagonista, já que muitos falam que ele não se importa muito com a comunidade, não é suficiente para dar conta do valor pedido e Dane vai agindo cada vez mais à margem da sociedade de modo a levantar a quantia.

Como é comum em narrativas sobre culturas distantes da nossa, há um certo grau de opacidade no modo como o filme retrata esses costumes e nem tudo será completamente entendido por uma audiência brasileira por conta disso. Na audiência informal em que o delegado de polícia apresenta a proposta da Diya para Dane, ele menciona os povos aos quais a família de Dane e a família da criança morta pertenciam e como, normalmente, aquela questão seria resolvida por líderes ou anciões desses povos. São elementos que não são devidamente explicados provavelmente porque a produção foi mais pensada para uma audiência local, não sendo didática ao apresentar o funcionamento daquela sociedade embora não chegue a prejudicar o entendimento dos elementos principais da narrativa.

Coletividade e individualidade

O principal problema, no entanto, é que apesar de se estruturar como uma corrida contra o relógio, o filme nunca nos faz sentir a urgência que a premissa evoca. Falta tensão na busca de Dane e, por isso, muito da trama não tem o peso dramático que deveria porque não sentimos o devido impacto do tempo de Dane se esgotando e das consequências que irão se impor ao protagonista. O miolo também tira o filme da discussão sobre comunidade e os impactos dessa tradição datada sobre um grupo inteiro de pessoas e foca mais no lado individual entrando nesse terreno mais comum do thriller do sujeito sozinho correndo contra o tempo para combater injustiças.

É só quando o filme chega perto do final que a narrativa pega o que parecia se encaminhar para um desfecho previsível e vira do avesso ao entregar uma reviravolta que muda tudo que pensávamos saber a respeito do que estava acontecendo. A guinada amplia a discussão sobre a Diya, mostrando como ela não é apenas um recurso brutal, como também os modos como se pode abusar dela e como mesmo alguém que seria beneficiado pela reparação dela, acaba prejudicado, como acontece com a mãe do garoto atropelado. O que era um conto moral sobre alguém lidando com as consequências de um erro se torna uma reflexão sobre a necessidade de manter certos costumes tradicionais.

Se o miolo do filme carece do devido impacto à corrida contra o relógio imposta ao protagonista, o desfecho marca pelo modo como reverte nossas expectativas e amplia as camadas de debate a respeito do costume da Diya.


Esse texto faz parte de nossa cobertura da Mostra de Cinemas Africanos 2026.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Crítica – Memória da Princesa Mumbi

Análise Crítica – Memória da Princesa Mumbi

Review – Memória da Princesa Mumbi
Falsos documentários ou mockumentaries brincam com a ideia de realidade documental e como muitas vezes recebemos de modo muito acrítico as imagens que o cinema nos dá, lembrando que mesmo no registro do real há uma construção dessas imagens e que elas podem ser modificadas ou falseadas. Memória da Princesa Mumbi mescla essa estética de falso documentário com ficção científica e romance para pensar nossa relação com as imagens, o cinema e a representação do mundo.

Futuro reverso

A narrativa se passa em 2093. Kuve (Ibrahim Joseph) viaja ao reino de Umata na costa da África para fazer um documentário sobre os efeitos de uma guerra ocorrida em 2070 que culminou com o lugar banindo a tecnologia para tentar resolver a depressão causada pela dependência tecnológica, se reestruturando em reinos retrofuturistas. Lá ele conhece Mumbi (Shandra Apondi) e a recruta para ajudar com seu documentário. Mumbi desafia Kuve a fazer um filme sem usar IA e aos poucos os dois vão se apaixonando, mas Mumbi está prometida em casamento para um príncipe de um reino vizinho.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Crítica – Reacher: 4ª Temporada

 

Análise Crítica – Reacher: 4ª Temporada

Review – Reacher: 4ª Temporada
Chegando em sua quarta temporada, Reacher continua sendo uma série relativamente formulaica embora saiba trabalhar dentro dessas fórmulas. O terceiro ano ao menos tentou apresentar uma estrutura diferente ao colocar o protagonista para se infiltrar em uma organização criminosa. Esse quarto ano, por sua vez, retorna ao formato já conhecido de Reacher acidentalmente esbarrar em uma conspiração criminosa e ser injustamente incriminado.

Nunca chove na Filadélfia

Enquanto viaja pela Filadélfia, Reacher (Alan Ritchson) encontra uma mulher agitada em um metrô. Ele suspeita que ela pode ter uma bomba, mas ela revela ter apenas uma arma e quando Reacher se aproxima a mulher se suicida. Reacher é tratado como suspeito de assassinar a mulher e levado para uma delegacia na cidade. Agentes da CIA aparecem na delegacia questionando se a mulher deu um pen drive a Reacher. Se sentindo culpado por não ter ajudado a mulher e desconfiado de que haja uma conspiração para encobrir algo, Reacher decide investigar o caso e provar a própria inocência.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Crítica – Gundam Hathaway: The Sorcery of Nymph Circe

 

Análise Crítica – Gundam Hathaway: The Sorcery of Nymph Circe

Review – Gundam Hathaway: The Sorcery of Nymph Circe
Na história da Odisseia, em voga nos últimos tempos por conta do filme do Christopher Nolan, bruxa Circe mantem Ulisses (ou Odisseu, dependendo da tradução) em sua ilha ao transformar seus soldados em animais. Ela também é responsável por colocá-lo de volta em seu caminho ao apontar ele na direção de um oráculo. A bruxa é, portanto, um obstáculo e um guia ao personagem e essa dualidade é evocada em Gundam Hathaway: The Sorcery of Nymph Circe na figura de Gigi Andalucia e na relação dela com Hathaway Noa.

Balada do jovem soldado

Depois dos eventos do primeiro filme em que descobrimos que Hathaway Noa é Mafty Navue Erin, líder de um movimento contrário à Federação e no qual ele recuperou o Xi Gundam, agora Hatahway começa sua cruzada contra o governo ao planejar um ataque contra uma conferência na Austrália. Enquanto isso, Gigi usa suas habilidades newtype para ver o futuro e manejar tanto Hathaway quanto o oficial Kenneth Sleg para o que ela quer.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Crítica – Antártida

 

Análise Crítica – Antártida

Resenha Crítica – Antártida
A ideia por trás de Antártida é interessante, construir um thriller na remota Estação Antártica Comandante Ferraz no Polo Sul aproveitando o isolamento da região. O problema é a trama se enrola em alguns elementos da condução do mistério e também no modo como lida com temas sensíveis.

Encontros no fim do mundo

A trama se passa em 2012, ano em que houve, no mundo real, um incêndio na Estação Antártica Comandante Ferraz. Pesquisadores e militares passam meses isolados na estação e a narrativa começa quando uma nova leva de pessoas chega para trabalhar no local e entre eles está a jovem cientista Inês (Marina Ruy Barbosa). Depois de uma festa de confraternização Inês é encontrada desacordada do lado de fora da base e a médica Marina (Leandra Leal) encontra indícios de estupro na jovem. A subcomandante Elizabeth (Andrea Beltrão) assume a investigação por não confiar no comandante Barros (Antonio Calloni), cuja conduta tem se tornado cada vez mais errática nos últimos tempos.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Crítica - Morte e Vida Madalena

 

Análise Crítica - Morte e Vida Madalena

Review - Morte e Vida Madalena
A produção Morte e Vida Madalena trata sobre os percursos tortos pelos quais nos conectamos com os outros, lidamos com a morte e com a renovação de nossas vidas. São temas que o diretor Guto Parente já tinha abordado em sua obra anterior, o ótimo Estranho Caminho (2024), e que aqui volta a falar com o mesmo esforço de equilibrar drama e comédia.

Encarando a perda

A narrativa é protagonizada por Madalena (Noá Bonoba). Grávida de oito meses, ela acabou de perder o pai e decide honrá-lo terminando seu último filme, uma ficção científica B. Ela decide filmar logo, antes que seu bebê nasça para não precisar lidar com a correria de uma produção com um recém-nascido. O problema é que muitas coisas fogem de seu controle e as filmagens são tomadas por caos quando o diretor, Davi (Marcus Curvelo), ex-marido de Madalena, desaparece. Ela traz Oswaldo (Tavinho Teixeira), amigo de seu falecido pai, para assumir o filme, mas Oswaldo parece ter ideias próprias para o filme, saindo do roteiro e irritando Madalena.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Crítica – A Morte de Robin Hood

 

Análise Crítica – A Morte de Robin Hood

Review – A Morte de Robin Hood
Muitas histórias já foram contadas sobre Robin Hood. Algumas com um viés de fantasia, outras buscando algum realismo histórico, mas a grande maioria delas retratava Robin como uma figura heroica que combatia injustiças e ajudava os pobres. A Morte de Robin Hood, por sua vez, tenta ver o que há por trás desse mito e como uma vida à margem da lei provavelmente faria de Robin Hood um alvo constante e o obrigaria a deixar uma trilha de corpos por onde quer que passasse.

Marcas da violência

A trama mostra um Robin (Hugh Jackman) já velho, vivendo isolado e sendo alvo de constantes ataques de pessoas tentando se vingar pela morte de seus entes queridos. Um dia ele é procurando pelo seu antigo parceiro, que agora atende pelo nome de Edward (Bill Skarsgard), que pede ajuda a Robin para repelir um ataque feito à propriedade em que vive por pessoas buscando vingança pelo passado deles. Robin ajuda, mas tudo dá errado e ele termina gravemente ferido, acordando numa ilha sob controle da freira Brigid (Jodie Comer, de Killing Eve) que usa o local como um espaço de cura e recuperação. Enquanto se recupera, Robin teme que descubram sua identidade e que venham atrás dele.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Drops – A Maravilhosa Árvore Encantada

 

Crítica – A Maravilhosa Árvore Encantada

Review – A Maravilhosa Árvore Encantada
Adaptando o livro infantil escrito por Enid Blyton, A Maravilhosa Árvore Encantada é uma fábula sobre infância e o poder da imaginação. Em um contexto no qual crianças passam boa parte do tempo em dispositivos eletrônicos e não se conectam com o mundo a sua volta, a narrativa lembra do quanto é importante imaginar e exercitar o lúdico.

Campo dos sonhos

A narrativa é centrada na família Thompson. Quando Polly (Claire Foy) perde o emprego, tendo que sair da casa dada pela empresa, ela e o marido, Tim (Andrew Garfield), decidem perseguir um sonho antigo e se mudam para o campo. Seus três filhos não gostam muito, já que vão ficar longe de tudo e sem internet. A caçula, Fran (Billie Gladsdon), descobre uma árvore mágica em um bosque próximo. A árvore é habitada por fadas, elfos e vários outros seres fantásticos que habitam diferentes reinos contidos na árvore. Fran logo chama os irmãos e eles se envolvem em grandes aventuras.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Crítica – Mayday

 

Análise Crítica – Mayday

Review – Mayday
Estrelado por Ryan Reynolds e Kenneth Branagh, Mayday é uma comédia de ação nos moldes de Máquina Mortífera (1987) ao apresentar uma dupla de protagonistas com personalidades opostas que precisam sobreviver a uma ameaça. Ele tenta falar sobre outras coisas ao situar sua trama no final da Guerra Fria, mas isso não leva a nada muito interessante.

Atrás das linhas inimigas

A narrativa se passa em 1987. O piloto Troy é designado para uma aeronave espiã em uma missão de voo sobre a União Soviética, mas quando seu avião é abatido, ele precisa dar um jeito de sair do país antes de ser capturado pela KGB. Ele é encontrado por Nikolai (Kenneth Branagh), um ex-agente soviético que convenientemente adora os Estados Unidos. Em troca de asilo político Nikolai aceita ajudar Troy a escapar, mas com uma condição, a de que levem junto a filha dele, Anna (Maria Bakalova), que mora em Moscou.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Drops – Código: Vingança

 

Análise – Código: Vingança

Review – Código: Vingança
Quando Duro de Matar (1988) estreou seu sucesso gerou uma onda de imitadores. Passageiro 57 (1992) era Duro de Matar em um avião. A Força em Alerta (1992) era Duro de Matar em um navio. Velocidade Máxima (1994) era Duro de Matar em um ônibus e daí em diante. Isso continua até hoje com Código: Vingança, novo filme de ação estrelado pelo Jason Statham, sendo mais um Duro de Matar em um navio.

Motim brutal

Statham interpreta Cole, um ex-militar que se tornou segurança de um poderoso empresário na Tailândia e o tem como uma figura paterna. Quando seu protegido é morto em um ataque do qual Cole é o único sobrevivente, ele decide buscar os culpados, o que o leva até um navio cheio de pessoas sendo traficadas protegidas por mercenários. Seu único auxílio é a terceira imediata Ellis (Annabelle Wallis, de Maligno) e agora ele precisa enfrentar todos no navio e sobreviver.