O produtor James L. Brooks, um
dos responsáveis por Os Simpsons, já
dirigiu algumas boas comédias dramáticas como Melhor é Impossível (1997), que rendeu Oscars para Jack Nicholson e
Helen Hunt, ou Espanglês (2004). Foi
por conta desse histórico que resolvi assistir este Imperfeitamente Perfeita. O que encontrei, no entanto, foi um
completo desastre.
Vida pública
A narrativa se passa em 2008 e
acompanha Ella (Emma Mackey, de Sex Education), uma idealista vice-governadora cujo governador e mentor
político está prestes a deixar o cargo para assumir uma posição de ministro no
governo federal. Prestes a assumir como governadora, Ella enfrenta problemas no
casamento, na sua carreira política e na relação distanciada que tem com o pai.
Depois de uma primeira temporada
que fez um bom trabalho em adaptar a lógica do anime One Piece para live
action, a série da Netflix chega a sua segunda temporada mais segura de si
e capaz de lidar com alguns problemas de seu ano de estreia. É uma série que
continua surpreendendo pelo modo como captura o espírito do anime e o adequa ao
seu formato.
Mestre dos mares
A narrativa começa no ponto em
que o ano anterior parou, com Luffy (Iñaki Godoy) e os demais membros do bando
dos Chapéus de Palha buscando a entrada da Grand Line, a linha marítima que dá
a volta no globo e guarda vários perigos para aqueles que tentam atravessá-la,
mesmo os piratas. Ao longo da viagem eles passam por diferentes ilhas, lidando
com perigos, encontrando novos aliados, como Vivi (Charithra Chandran), e novos
inimigos na forma dos agentes da Baroque Works que caçam Vivi e os Chapéus de
Palha.
Em uma cerimônia apresentada por
Conan O’Brien, o Oscar 2026 teve Uma Batalha Após a Outracomo seu grande vencedor, levando seis estatuetas,
incluindo melhor filme e melhor diretor. Pecadoresfilme mais indicado da noite, com dezesseis menções, venceu quatro Oscars. O
filme brasileiro O Agente Secreto infelizmente
não levou nenhuma estatueta e o brasileiro Adolpho Veloso que concorria ao
prêmio de melhor fotografia por Sonhos de Tremtambém não venceu, com Pecadoreslevando a estatueta e Autumn Durald Arkapaw fazendo história ao se tornar a
primeira mulher a vencer na categoria. Na categoria de curta-metragem houve um inesperado empate, com dois filmes recebendo o prêmio, algo que só aconteceu sete vezes ao longo da história da premiação. Por mais que tenha sido uma pena o
Brasil não ter levado nada, fico contente com a vitória do filme de Paul Thomas
Anderson (que estava na minha lista de melhores filmes do ano passado), um
realizador com uma trajetória robusta que desde Magnólia (1999) merecia reconhecimento da Academia.
Apesar de gostar de O’Brien, a
cerimônia em si foi morna, com algumas piadas do apresentador não funcionado e
um tom estranhamente pouco crítico, tanto dos apresentadores quanto dos
vitoriosos que, ao contrário de edições anteriores, como no ano passado, pouco
se posicionaram frente aos problemas recentes do país como os ataques ao Irã ou
o modo como a ICE lida com os imigrantes. Talvez tenha sido algo proposital
para evitar melindrar parte da audiência, mas também baixou a temperatura ao ponto
da noite não oferecer muitos momentos memoráveis. Um dos poucos destaques foi o
in memoriam, momento em que a Academia
presta homenagem aos que faleceram ao longo do último ano. Pela primeira vez em
muito tempo esse segmento soou verdadeiramente como uma homenagem afetuosa aos que
partiram e não uma vinheta burocrática feita para cumprir protocolo.
Confiram abaixo a lista completa
de indicados com os vencedores destacados em negrito.
Filmes de piratas fizeram muito
sucesso na Hollywood dos anos 1930 e 1940, alçando ao estrelato nomes como
Errol Flynn. Assim como aconteceu nos westerns,
no entanto, esses filmes meio que saíram de moda com o tempo e era raro a indústria
voltar a eles, com algumas tentativas como A
Ilha da Garganta Cortada (1995) resultando em fracassos retumbantes. A
coisa mudou quando a Disney lançou Piratas
do Caribe: A Maldição do Pérola Negra (2003) com enorme sucesso e iniciando
uma franquia que se estendeu por cinco filmes (embora o quarto e o quinto sejam
muito ruins) e outras produções.
Era de se imaginar que a aventura
do capitão Jack Sparrow faria por essas histórias de swashbuckling o que Gladiador
(2000) e O Senhor dos Anéis: A Sociedade
do Anel (2001) fizeram pelos épicos ou que Moulin Rouge (2001) e Chicago
(2002) fizeram pelos musicais, reinvigorando o gênero e iniciando um novo
ciclo de produção dessas narrativas. Não foi o que aconteceu, ao menos nos
cinemas, já que na televisão tivemos algumas séries com piratas. Algumas
tentativas de aventuras marítimas como Mestre
dos Mares (2003) ou No Coração do Mar(2015) eram mais interessados em algo mais histórico do que o tom
aventuresco das aventuras de piratas. Faço todo esse preâmbulo porque meu tempo
assistindo este O Refúgio, produção
da Prime Video, me fez pensar como a indústria hollywoodiana realmente passou
batido por uma possível onda de filmes de piratas e essa aventura estrelada por
Priyanka Chopra e Karl Urban se situa exatamente nesse gênero.
Um grupo de soldados de elite em
missão na floresta encontra uma criatura alienígena com armas avançadas que
começa a caçá-los. Essa é a premissa de O
Predador (1987) que é emulada diretamente por este Máquina de Guerra (não confundir com o filme de mesmo nome protagonizado por Brad Pitt e também lançado pela Netflix), que não faz nada interessante com o conceito
além de repetir de maneira burocrática elementos já conhecidos.
Conflito mecânico
A narrativa acompanha o soldado
81 (Alan Ritchson, de Reacher) que
tenta entrar para os rangers, a divisão de elite do exército dos Estados
Unidos. Anos atrás ele prometeu ao irmão que os dois fariam a seleção para os
rangers, mas o irmão é morto em combate junto com o resto da unidade, deixando
o protagonista como o único sobrevivente. Agora, ele tenta entrar para a
divisão de elite como meio de cumprir a promessa ao irmão. O protagonista chega
à etapa final da seleção, uma missão simulada em meio a montanhas remotas.
Durante a missão, no entanto, ele e os companheiros encontram uma enorme
criatura metálica que caiu dos céus em um meteoro e começa a caçá-los.
Nunca joguei o game homônimo que
este Iron Lung: Oceano de Sangue se
baseia. Tampouco tenho muito conhecimento sobre o youtuber Markplier que dirigiu e estrelou o filme. Parto, portanto,
do olhar de um neófito a tudo isso e o que eu posso dizer é que essa tentativa
de um horror cósmico e claustrofóbico é bem sem graça.
Segredo do abismo
A narrativa se passa em um futuro
apocalíptico no qual boa parte da humanidade e planetas habitáveis desapareceu.
A chance de sobrevivência da humanidade reside em uma lua tomada por um oceano
de sangue. Lá, Simon (Markplier) é um condenado em busca de redenção que aceita
ser colocado em um Iron Lung, um pequeno submarino lacrado, para explorar o mar
de sangue e possivelmente encontrar algo que possa dar esperança de
sobrevivência à humanidade. Como câmeras não funcionam direito no mar de
sangue, ele precisa recorrer a raio-x para ter imagens das imediações e logo
encontra criaturas sombrias e horrores inimagináveis no local.
O diretor Paul Feig fez seu nome
em comédias e surpreendeu ao migrar para o suspense com Um Pequeno Favor(2018) sua segunda incursão ao gênero foi
justamente a continuação Outro Pequeno Favor(2025), que ficou bem abaixo do antecessor. Agora ele retorna com
outro suspense neste A Empregada.
Tensões domiciliares
A narrativa acompanha Millie
(Sydney Sweeney), que está recomeçando a vida depois de sair da prisão. Ela
consegue um trabalho como empregada doméstica na casa da rica Nina (Amanda
Seyfred). Nos primeiros dias no trabalho, Millie percebe que a patroa é uma
mulher instável e agressiva que não perde a oportunidade de humilhá-la. Ainda
assim ela continua no emprego por necessidade. Ao mesmo tempo ela vai se
aproximando do marido de Nina, Andrew (Brandon Sklenar), e logo começa a
desejá-lo, formando um perigoso triângulo amoroso.
Depois do equivocado Maestro(2023), um filme tão desesperado
por Oscars que se entregava a excessos que o tornavam risível, Bradley Cooper
retorna como diretor neste Isso Ainda
Está de Pé? A produção é uma comédia dramática muito mais contida e sincera
que seu trabalho anterior.
Rir para não chorar
A narrativa é centrada em Alex
(Will Arnett) e Tess (Laura Dern) eles estão casados há 25 anos, mas o
casamento esfriou. De maneira extremamente casual, como se não fosse grande
coisa, eles decidem se separar. Alex se muda para um apartamento e os dois
filhos do casal parecem compreender o que está acontecendo sem muitos
problemas. Eles, no entanto, tem dificuldade de explicar a decisão para as
pessoas próximas, como os pais de Alex ou o casal de amigos Balls (Bradley
Cooper) e Christine (Andra Day). Um dia Alex entra num bar e percebe que está
sem dinheiro. A única maneira de pagar seu drinque é se inscrevendo para se
apresentar no open mic de stand up comedy do bar. Mesmo sem
piadas, ele se conecta com o público ao compartilhar histórias sobre seu
casamento fracassado. Encorajado pelos demais comediantes do local, Alex decide
tentar a comédia.
Dirigido por Maggie Gyllenhaal, A Noiva! é um filme esquisito e digo
isso como elogio. Nem tudo que ele tenta fazer funciona e parece ter
dificuldade de organizar suas várias ideias em um pacote coeso, no entanto, há
algo bastante singular na releitura que a diretora faz da história da “noiva do
Frankenstein”.
Casamento sangrento
A narrativa se passa nos Estados
Unidos na década de 1930. A criatura de Frankenstein (Christian Bale) vai ao
país procurando a doutora Euphronius (Annette Benning), uma cientista
proeminente no campo da reanimação. Ele pede ajuda para criar uma companheira e
aplacar a solidão que sente há mais de um século. Junto da cientista ele escava
um cadáver recém enterrado e reanima sua Noiva (Jessie Buckley), ela tem poucas
memórias de sua vida pregressa e disputa o controle do seu corpo com o espírito
da escritora Mary Shelley (também Jessie Buckley), autora do romance Frankenstein. Juntos Frank e sua Noiva
partem para explorar a cidade, mas logo se tornam alvo das pessoas por conta de
sua aparência.
Como lidar com a perspectiva de
morte iminente? O que fazer quando sabemos que temos pouco tempo neste mundo e
como nos preparamos para esse fim? Não são perguntas fáceis, mas é com elas que
o documentário Embaixo da Luz de Neon
tenta dialogar, produzindo um retrato sensível de alguém que vê o fim se
aproximar.
Vida poética
O documentário acompanha aquele
que pode ser o último ano da vida da poeta Andrea Gibson. Três anos antes ela
tinha recebido um diagnóstico de câncer de ovário e depois de vários
tratamentos a doença insistia em voltar. A essa altura ela já ultrapassou o
prognóstico de dois anos de vida e o câncer já se tornou metástase e se
espalhou para os ossos. A narrativa acompanha Andrea e a esposa, Megan Falley,
em seu cotidiano.
Seria fácil construir tudo como
uma narrativa sorumbática sobre a dor e sofrimento de uma paciente oncológica
nos altos e baixos dos estágios finais da doença, mas Andrea, Megan e, por
consequência, a narrativa não se permitem deixar o desespero tomar conta. Temos
os momentos dos resultados dolorosos de exames, dos efeitos colaterais severos
de medicação, do desalento no qual Andrea questiona a própria existência.
Em meio a toda essa dor, no
entanto, o casal encontra momentos de felicidade, seja durante um breve recuo
do câncer, seja em um jantar com amigas ou em momentos de cumplicidade nas
quais as duas deitam no chão da casa ao lado dos animais de estimação e trocam
confissões de mãos dadas.
Enquanto elas conversam, a
montagem transita entre várias imagens de arquivo do passado recente de Andrea
desde que recebeu o diagnóstico e também de momentos anteriores de sua vida. O
recurso soa como um esforço de nos deixar imersos no fluxo de pensamento da
personagem, ilustrando seus sentimentos, memórias e relação com o mundo,
principalmente nas cenas em que ela declama suas poesias. As falas de Andrea
lidam com a angústia do fim, mas celebram uma vida bem vivida, na qual ela
conseguiu viver fazendo o que ama, encontrou uma companheira e se depara com
seus possíveis momentos finais cercada de afeto. Uma ponderação de como a
finitude da nossa existência é o que torna belo cada um dos momentos de amor ou
felicidade que experimentamos, mesmo aqueles que parecem pequenos no grande
esquema das coisas.
Rockstar da poesia
O documentário também analisa a
trajetória artística de Andrea e como ela se tornou relevante no meio da
poesia, em especial por sua apresentações de poesia falada. Explorando como a
arte feita por ela se conecta com seus sentimentos, acompanhamos algumas
apresentações que revelam a intensidade com a qual ela declama suas palavras e
a força de suas apresentações, que movem o público de uma maneira que parece
mais próxima de uma estrela da música.
Para quem não conhece a obra de
Andrea, o filme oferece um bom ponto de entrada para sua obra e analisa seus
impactos da arte queer e no meio da
poesia como um todo. A cena da apresentação final de Andrea serve como uma
celebração de sua vida e arte, uma catarse poderosa a respeito de não perder a
força de vontade mesmo quando o fim se aproxima. Seria, inclusive, um bom ponto
para encerrar o filme, com a apoteose da artista conseguindo entregar uma
performance derradeira depois de meses com a saúde fragilizada. Sim, a cena
final de Andrea e Kate conversando enquanto olham o último exame e conversam
sobre os pássaros pousados na árvore serve como uma delicada reflexão final do
modo como as duas encaram o relacionamento delas e o inexorável fim que acaba
se colocar diante delas, mas penso que a performance da poesia funciona melhor
como clímax.
Embaixo da Luz de Neon equilibra muito bem o tema delicado que
trata, refletindo sobre vida, morte, amor e despedida com muita delicadeza e
lirismo.