Um bom final muitas vezes nos faz
perdoar algumas falhas do filme pelo impacto que causa ou pelo modo como
recontextualiza muito do que vimos. De certa forma é isso que acontece com
Diya, produção de Chade que em muitos
momentos parece não conseguir entregar o que promete, mas redime parte de seus
problemas com sua reviravolta final.
Lei de talião
A narrativa se passa em Jamena,
capital de Chade, país da África central, e é centrada no motorista Dane (Ferdinand
Mbaissané). Um dia Dane acidentalmente atropela uma criança, prestando socorro
e se dispondo a pagar as despesas médicas da criança. Quando o garoto vem a
óbito, Dane é preso por homicídio culposo. A família do menino morto, porém,
evoca a Diya, um código de conduta do local que exige retribuição pelo sangue
derramado, cobrando de Dane cinco milhões de francos como reparação pela morte
do garoto. Se ele conseguir, o crime é considerado reparado e não vai a
julgamento. Com a perspectiva de evitar a cadeia e não se afastar da esposa
grávida ou do filho que está prestes a nascer, Dane inicia uma corrida contra o
tempo para juntar o dinheiro no prazo dado de duas semanas.
O filme analisa os costumes
locais e os problemas em ter uma sociedade na qual a retribuição é cobrada de
maneira implacável. Dane tem que pagar essa dívida de sangue, mas perde seu
emprego e quaisquer outros meios para conseguir dinheiro por conta própria.
Mesmo o auxilio de sua vila, que tenta levantar o dinheiro mais por senso de
dever do que por simpatia ao protagonista, já que muitos falam que ele não se
importa muito com a comunidade, não é suficiente para dar conta do valor pedido
e Dane vai agindo cada vez mais à margem da sociedade de modo a levantar a
quantia.
Como é comum em narrativas sobre
culturas distantes da nossa, há um certo grau de opacidade no modo como o filme
retrata esses costumes e nem tudo será completamente entendido por uma
audiência brasileira por conta disso. Na audiência informal em que o delegado
de polícia apresenta a proposta da Diya para Dane, ele menciona os povos aos
quais a família de Dane e a família da criança morta pertenciam e como,
normalmente, aquela questão seria resolvida por líderes ou anciões desses
povos. São elementos que não são devidamente explicados provavelmente porque a
produção foi mais pensada para uma audiência local, não sendo didática ao
apresentar o funcionamento daquela sociedade embora não chegue a prejudicar o
entendimento dos elementos principais da narrativa.
Coletividade e individualidade
O principal problema, no entanto,
é que apesar de se estruturar como uma corrida contra o relógio, o filme nunca
nos faz sentir a urgência que a premissa evoca. Falta tensão na busca de Dane
e, por isso, muito da trama não tem o peso dramático que deveria porque não
sentimos o devido impacto do tempo de Dane se esgotando e das consequências que
irão se impor ao protagonista. O miolo também tira o filme da discussão sobre
comunidade e os impactos dessa tradição datada sobre um grupo inteiro de
pessoas e foca mais no lado individual entrando nesse terreno mais comum do thriller do sujeito sozinho correndo
contra o tempo para combater injustiças.
É só quando o filme chega perto
do final que a narrativa pega o que parecia se encaminhar para um desfecho
previsível e vira do avesso ao entregar uma reviravolta que muda tudo que
pensávamos saber a respeito do que estava acontecendo. A guinada amplia a
discussão sobre a Diya, mostrando como ela não é apenas um recurso brutal, como
também os modos como se pode abusar dela e como mesmo alguém que seria
beneficiado pela reparação dela, acaba prejudicado, como acontece com a mãe do
garoto atropelado. O que era um conto moral sobre alguém lidando com as
consequências de um erro se torna uma reflexão sobre a necessidade de manter
certos costumes tradicionais.
Se o miolo do filme carece do
devido impacto à corrida contra o relógio imposta ao protagonista, o desfecho
marca pelo modo como reverte nossas expectativas e amplia as camadas de debate
a respeito do costume da Diya.
Esse texto faz parte de nossa
cobertura da Mostra de Cinemas Africanos 2026.