
A
trama acompanha a trajetória da pintora Margaret Keane (Amy Adams) que em 1950
vai para São Francisco depois de deixar o esposo. Lá conhece seu futuro marido,
o também pintor Walter Keane (Christoph Waltz). Quando as pinturas de Margaret
começam a fazer sucesso, seu marido reclama para si a autoria dos quadros e
ela, temendo perder a fonte de renda, decide aceitar a mentira e continua
pintando enquanto seu marido receba o crédito. Com o tempo a mentira começa a
pesar na consciência de Margaret, ao mesmo tempo em que o marido vai se
tornando progressivamente mais agressivo na manutenção de sua farsa.
É
fácil entender o que atraiu Burton para esta história, além da estética
expressionista das crianças de olhos grandes de Keane, também há a questão de
que ela é uma personagem tipicamente "burtoniana". Assim como boa
parte dos protagonistas do diretor, Keane é uma pessoa solitária, que se sente
isolada do resto do mundo e é por ele incompreendida (afinal ninguém sabe que é
ela quem pinta), precisando lutar para ser aceita e reconhecida.
Amy
Adams constrói bem a figura de Keane, como uma mulher determinada, mas
insegura, que se submete a uma situação desconfortável por achar que não tem
escolha, já que nos anos 50 uma mulher separada e com uma filha era mal vista
pela sociedade patriarcal de então. Isso fica claro na cena em que ela se
confessa para um padre e este te diz para acatar as ordens do marido pois
"o homem é quem manda". Em um trabalho sutil, Adams vai aos poucos
nos mostrando o peso dessa decisão sobre a pintura conforme sua resignação vai
se tornando amargura e ela fica cada vez mais isolada dos amigos e da filha para
manter a farsa do marido.
A
fotografia com cores fortes e saturadas ajuda a nos transmitir o olhar que
Keane tem sobre o mundo e traduz em seus quadros, bem como as ocasiões em que
ela se sente desconfortável e vê as pessoas com olhos iguais às de suas
pinturas. Nesse sentido, é uma pena que nem sempre o filme recorra a essas
soluções mais criativas para nos mostrar o olhar da pintora e se limite apenas
a explicar através de diálogo algumas de suas motivações, como no momento em
que ela diz que seu foco nos olhos foi uma temporária surdez. Assim o filme
apenas expõe, sem tentar nos fazer sentir o que essa experiência significou
para ela.
A
obra acerta ao nunca tentar decifrar completamente a arte da pintora como
muitas biografias de artistas fazem trazendo um momento que definirá todas as
suas escolhas enquanto artista. Ao invés disso, dá algumas indicações de porque
Keane vê o mundo dessa forma, mas nunca comete o erro de reduzir seu trabalho a
uma única frase ou instante de inspiração, permitindo que observemos e
julguemos suas pinturas por nós mesmos.
Christoph
Waltz traz sua habitual competência a seu Walter, que começa como um bon vivant carismático e vai se
revelando um sujeito abusivo e raivoso. Essa transição é tratada com bastante
cuidado e o filme vai nos dando pistas de que ele esconde algo sob sua fachada
adorável, assim a mudança nunca soa gratuita ou forçada. Um exemplo ocorre
quando o dono de uma galeria (Jason Schwartzman em uma ponta de luxo) pergunta
como ele consegue continuar pintando cidades francesas se ele não vai lá a anos
ou a vergonha que ele exibe ao admitir que trabalha como corretor imobiliário.
Apesar
dele ser um claro antagonista, a narrativa evita descambar para um maniqueísmo
simplório, reconhecendo que sem o tino comercial de Walter as pinturas de
Margaret certamente não teriam recebido tanta visibilidade e reconhecimento,
mas sem ser condescendente ao ponto de usar isso para suavizar os abusos do
personagem.
A
escolha por usar uma narração em off
com um jornalista (Danny Houston) relatando a história de Margaret se revela um
recurso bastante desnecessário, já que suas intervenções são na maioria das
vezes redundantes e acrescentam pouco ao filme.
Isso,
entretanto, não diminui a eficácia de Grandes
Olhos que nos lembra o quanto o trabalho de Tim Burton pode ser
interessante em um retrato sensível de uma artista que se via presa às
equivocadas normas de sua época.
Nota: 7/10
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