
Dito isto é necessário esclarecer que este filme passa longe de ser o ponto mais baixo na carreira de Shyamalan, A Dama na Água (2006) eFim dos Tempos (2008) ainda seguem insuperáveis neste quesito, mas trata-se de tão incrivelmente derivativo e genérico que certamente não irá fazer favor algum à carreira do diretor.
Escrito por Shyamalan e Gary Whitta a partir de um argumento desenvolvido pelo próprio Will Smith, o filme se passa mil anos no futuro quando a humanidade deixou a Terra depois de exaurir todos os recursos e partiu para um novo planeta onde trava uma guerra contra uma raça alienígena. A história é centrada em Kitai (Jaden Smith) um jovem que deseja se tornar um ranger (a elite militar do novo planeta) assim como seu pai, o herói de guerra Cypher (Will Smith), com quem nunca teve muito contato. Tentando se reaproximar do filho, Cypher o leva a uma missão de treinamento em um planeta distante, mas a nave é danificada e cai em um planeta incrivelmente hostil, a Terra. Kitai e Cypher são os únicos sobreviventes (sabe-se lá porque), mas Cypher é ferido gravemente e Kitai precisa sozinho caminhar até a outra parte dos destroços para encontrar o sinalizador da nave e chamar ajuda.
O filme tem a progressão narrativa de um videogame, consistindo basicamente em Kitai tendo de andar do ponto A até o ponto B enfrentando alguns inimigos, fazendo paradas em pontos de checagem (os famososcheckpoints) entre uma fase e outra, checando seu inventário e enfim enfrentando o chefão final.
Apesar da premissa básica e vazia, o filme ainda poderia funcionar se fosse capaz de criar uma atmosfera de tensão ou cenas de ação funcionais e empolgantes, mas não é o caso. A ação é burocrática e pouco inventiva, sendo ainda prejudicada pelos efeitos especiais irregulares que denunciam a artificialidade das criaturas, quebrando a imersão no universo ficcional, deixando claro que estamos apenas Jaden Smith correr de um lado para outro diante de um chroma key. Além disso, toda a tensão se dilui pelo fato de sabermos que, não importa o que aconteça, Kitai irá sobreviver, afinal ele é o único personagem em cena e o filme acabaria se ele morresse. Inclusive há um momento numa paisagem congelada que o filme recorre a um deus ex machina tão forçado, estúpido e revoltante para garantir a sobrevivência dele que é impossível não ter vontade de deixar a sala de cinema.
Para preencher o vazio, o filme ainda coloca uma série de flashbacks com Kitai lembrando a morte da irmã mais velha (Zoe Kravitz) ou alucinando com ela, mas estas sequências não acrescentam nada ao desenvolvimento do personagem (boa parte deles apenas repete as mesmas informações) e visam apenas gerar alguns sustos gratuitos, despropositados e que não funcionam. Já que falei em desenvolvimento de personagem, é preciso dizer que todo esforço da narrativa em criar simpatia por Kitai acaba tendo efeito contrário. Desejoso pela atenção e aprovação do pai, Kitai tenta agir por conta própria, ignorando ordens e ocultando informações, colocando-se, assim, em mais perigo (e alongando mais a premissa inexistente do filme). Ora, como é possível simpatizar com um garoto que, diante de uma situação de perigo extremo e com sua vida em jogo, se recusa a colaborar com o pai, um guerreiro experiente e eficiente, apenas por birra infantil?
O usualmente carismático Will Smith tem pouco a fazer aqui. Seu personagem, além de um amontoado de clichês, passa boa parte do filme sentado apenas dando ordens, informações expositivas e lições de moral ao filho, enquanto tenta lidar com a dor das suas pernas quebradas e uma hemorragia na artéria femoral (e isso não é uma suposição, o filme deixa claro o dano arterial). Antes de tudo, devo dizer que é impressionante que o sujeito sobreviva quatro dias com uma artéria aberta e sangrando, quando não deveria sequer sobreviver quatro horas, e assim somos obrigados a aguentar durante todo o filme seus vergonhosos diálogos sobre superação de medo que parecem tirados de um livro barato de autoajuda. Não que as falas de Kitai sejam exatamente melhores, o momento que ele descobre o funcionamento de seu uniforme é de corar de vergonha, mas pelo menos não é estupidamente pretensioso como Cypher.
Igualmente vergonhoso é o clímax da narrativa, que coloca Kitai correndo de um lado para o outro com o sinalizador na mão, pois o aparelho, tal qual um celular da Tim, ficou sem sinal. Mais uma vez trata-se e uma tentativa desesperada de criar tensão ou conflito, além de “encher linguiça” até a chegada do inimigo final. Na verdade, em boa parte do filme erguemos os braços em incredulidade a tantas coisas sem sentido que ocorrem, sendo quase impossível aderir e acreditar neste universo e nestes personagens.
Assim sendo, Depois da Terra é mais uma bola fora na outrora promissora carreira de M. Night Shyamalan, que aqui cria uma narrativa desconjuntada, vazia, sem ritmo ou emoção cujo único resultado é o tédio e o aborrecimento.
Nota: 2/10
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