
Lampião
(Irandhir Santos) lidera seu bando pelo sertão pernambucano acompanhado por Maria
Bonita (Hermila Guedes) enquanto são perseguidos pelas autoridades. Seu
principal adversário é Antero Tenente (Servilio Holanda), que jurou vingança
depois de ter sido amarrado de cabeça para baixo e abandonado pelo bando. A
rivalidade entre Antero e Severo Brilhante (Evair Bahia), braço direito de
Lampião, acaba se estendendo para gerações posteriores.
Com
diálogos predominantemente rimados e com a música acompanhando os personagens a
todo tempo, a sensação é que estamos acompanhando um cordel ou um repente
ganhar vida diante dos nossos olhos. Por mais que o filme trate de algo do
nosso passado histórico, há um lirismo encantador fruto justamente dessa opção
de contar a história através desses modos tradicionais da cultura local.
Sua
reconstrução do período remete de modo sincero a vida em uma cidade do
interior, figuras típicas desses locais e os "causos" sobre amor,
traição e eventos inexplicáveis que eram contados através de cordéis, repentes
e modas de viola. Inclusive porque o interesse de Valença aqui não é falar
exatamente sobre o cangaço, mas sobre o povo e a cultura que existe em torno
dessas figuras históricas e examinar como e porque essas figuras se mantiveram
no imaginário popular, mesmo quando a "história oficial" os tachou de
criminosos, e as apropriações feitas a partir de sua iconografia.
De
maneira simbólica, vemos Lampião sobreviver através do tempo e recusar-se a
morrer pelo modo como pouca coisa muda com o passar das gerações e as situações
e problemas de outrora permanecem na vida da população. Lampião, aliás, é
vivido com a competência habitual de Irandhir Santos, que capta toda a
complexidade do líder do cangaço, fazendo dele um homem simultaneamente bruto e
sensível, rebelde e respeitoso, humilde e sábio. A Maria Bonita de Hermila
Guedes é construída com um igual cuidado, transitando com sensibilidade entre a
dureza e a ternura.
Duro
também é o árido sertão pernambucano e câmera de Valença consegue deixar claro
o quanto esse ambiente pode ser hostil com o sol causticante e as paisagens
dominadas por árvores retorcidas e ressacadas. No entanto, também é capaz de
encontrar beleza em meio à secura bravia, como o instante em que Lampião colhe
flores ou o momento em que vemos a silhueta do cangaceiro delineada pelo pôr do
sol.
A Luneta do Tempo acaba se revelando, portanto, uma vibrante e
apaixonada celebração da cultura nordestina, demonstrando as razões da
permanência de suas figuras em nosso imaginário e o fascínio que elas
despertam.
Nota:
8/10
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