
A intenção inicial do diretor e
ciclista semiprofissional Bryan Fogel era fazer uma espécie de Super Size Me: A Dieta do Palhaço (2004)
do doping. Com auxílio de médicos do
esporte e especialistas de testes antidoping,
ele usaria anabolizantes para melhorar sua performance e burlaria os testes de
drogas para mostrar como é fácil burlar esse tipo de exame, tal qual o ciclista
Lance Armstrong fez durante anos. Durante o processo, o especialista antidoping que acompanhava Bryan decide
desistir, com medo que o ato de ajudar um atleta burlar o sistema acabe com sua
credibilidade no meio esportivo. Bryan acaba então direcionado para o
bioquímico russo Grigory Rodchenkov, o responsável pela agência antidoping da Rússia. Grigory começa a
instruir Bryan, mas logo uma reportagem de uma televisão alemã libera
informações de que o bioquímico está no centro de um esquema encabeçado pelo
governo russo para dopar seus atletas e evitar detecção nos testes. Assim,
Bryan muda seu foco para investigar o papel de Grigory nisso tudo.
Talvez tivesse sido melhor se
Bryan Fogel retirasse toda (ou pelo menos um considerável pedaço) a parte de
seu experimento com doping no
ciclismo no corte final do filme. Esse pedaço inicial faz sua narrativa demorar
a chegar onde quer, torna o filme desnecessariamente longo e seu ponto, o de
que ciclistas conseguem evitar o sistema antidoping,
já tinha sido exaustivamente provado. O escândalo envolvendo Lance Armstrong e
outros ciclistas já tinha sido exaustivamente investigado e analisado em filmes
como A Mentira de Armstrong (2013) e Stop at Nothing: The Lance Armstrong Story
(2014) e, assim sendo, toda o prólogo do filme acaba soando um pouco
redundante.
É quando o filme se debruça sobre
a denúncia do esquema russo que as coisas realmente engrenam e ganham contornos
de filme de espionagem conforme Rodchenkov passa a temer pela própria vida e o
documentário traz um senso palpável de tensão conforme Bryan tenta tirá-lo da
Rússia e mantê-lo seguro. O que se segue acaba sendo um relato detalhado e
contundente de como a alta cúpula russa, implicando diretamente o ministro do
esporte e possivelmente o presidente Vladimir Putin, criaram um esquema que
existe a décadas para que os atletas russos conseguissem usar anabolizantes e ainda
assim passassem incólumes nos testes antidoping.
Ajuda o filme que Rodchenkov seja
um personagem tão fascinante. Nas conversas iniciais com Bryan durante seu
experimento com anabolizantes ele parece ser apenas um sujeito amoral e
antiético ao discutir trapaças de maneira tão aparente e sem vergonha. Aos
poucos, no entanto, vamos descobrindo um componente trágico de sua vida e como,
de certa maneira, ele quase um refém do governo russo, humanizando-o ainda que
não exatamente tente torná-lo um sujeito completamente inocente naquilo tudo.
Conforme segue a reação do COI
(Comitê Olímpico Internacional) em relação às informações divulgadas do esquema
russo, o filme também nos faz pensar como isso provavelmente não é um caso
isolado e que o esquema põe em questão toda a idoneidade dos procedimentos. A
própria decisão do COI em voltar atrás no banimento dos atletas russos a
despeito do acachapante volume de provas materiais já demonstra como a entidade
não é movida meramente pela preocupação com o fair play. Afinal eles poderiam anunciar uma completa
reestruturação de seus processos, fazer um mea
culpa sobre as fraudes que ocorreram sob seus narizes, mas ao invés disso
resolvem enterrar o caso e seguir adiante, revelando que se preocupam mais com
uma aparência de que tudo está bem do que em realmente garantir que tudo esteja
conforme deve ser. Apesar de ser a única a ter provas contundentes reveladas, é
pouco provável que a Rússia seja o único país com um esquema de fraudar o antidoping.
Apesar de começar com um
experimento que tem pouco a dizer sobre o mundo do esporte, Ícaro acaba se transformando em uma
impactante denúncia que põe em questão toda a idoneidade do esporte olímpico.
Nota: 7/10
Trailer
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