Trabalho interno
Depois dos eventos do fim do primeiro ano Mark (Adam Scott) volta a trabalhar refinando macrodados na Lumon. Seu interno não sabe como voltou para lá nem o que aconteceu no mundo exterior depois que conseguiram visitá-lo, mas sabe que sua esposa ainda está viva em algum lugar na empresa e tenta encontrá-la com a ajuda dos colegas Irv (John Turturro), Dylan (Zach Cherry) e Helly (Britt Lower), por quem está apaixonado. A saída deles também impacta no modo como a Lumon lida com os funcionários que passaram por ruptura, anunciando mudanças que supostamente vão melhorar a qualidade de vida deles.
As medidas, como deixar de filmar os trabalhadores o tempo todo, permitir que eles perambulem pelos corredores ou até encontrem membros da família de seu externo apenas ressaltam o aprisionamento daquelas pessoas. Os internos são personalidades criadas com o objetivo de viver uma existência de trabalho, uma existência que eles não podem escapar ou sequer escolheram para si. Eles são basicamente escravos da Lumon e de seus externos, algo agravado pelo fato de que o processo de ruptura sequer permite que eles escapem ou se demitam, já isso implicaria neles apagarem a própria existência. Deixar de trabalhar seria como suicídio para eles, o que evidencia o horror de sua existência.
Horrores que se tornam ainda mais evidentes no sétimo episódio centrado em Gemma (Dichen Lachman) no qual descobrimos que ela passou os últimos anos sendo cobaia da Lumon, com seu chip de ruptura sendo usado para criar diversas personalidades diferentes para ela de modo a experimentar se o processo seria capaz de isolar completamente as experiências de cada persona, até mesmo a dor física. Ao longo do episódio a vemos passar por todo tipo de abuso físico e psicológico sem sequer se dar conta do que está sendo feito com ela por conta da ruptura.
Os primeiros episódios focam bastante nas consequências do que os personagens fizeram ao fim da primeira temporada e isso os faz parecer que não estão avançando os conflitos da nova temporada, mas eles são importantes para estabelecer uma série de elementos que serão mais importantes adiante. Também servem para lembrar toda a bizarrice sinistra que acontece nos corredores da Lumon, inserindo elementos como o salão das cabras visitado por Mark e Helly, cujos funcionários chegam a agir com bastante agressividade para defender as cabras.
A nova secretária do Sr. Milchick (Tramell Tillman), a adolescente Srta. Huang (Sarah Bock) adiciona camadas ao estranhamento do lugar, já que ter alguém com aparência de criança no meio daquele ambiente de trabalho tão opressivo e levando tão a sério suas ocupações faz tudo mais sinistro. A garota também ilustra como a Lumon doutrina seus funcionários desde cedo, fazendo entender porque mesmo aqueles que não passam por Ruptura, como Cobel (Patricia Arquette) ou o próprio Milchick, tem uma devoção tão radical à empresa.
Distopia presente
O episódio centrado em Cobel, por sinal, traz várias explicações sobre o passado da Lumon e seu histórico de exploração de trabalhadores. Recentemente quando escrevi sobre Mickey 17 e a série Paradise mencionei como há um equívoco constante sobre distopias, considerando-as como alertas para o futuro sendo que na verdade distopias são sobre o presente, sobre processos que aconteceram e continuam a acontecer. O oitavo episódio leva Cobel a sua cidade natal e berço da Lumon, mostrando as origens da corporação.
Pela estética limpa do que vemos da empresa no presente imaginaríamos que ela foi formada como uma empresa de tecnologia, que Kier estaria mais próximo de Elon Musk, Steve Jobs ou Bill Gates, mas o oitavo episódio mostra que a empresa e seu modo de pensar está mais conectada com o capitalismo industrial do século XIX do que com o capitalismo tecnológico do presente. Ao sabermos que a empresa nasceu como uma fábrica de éter e que ela devastou a cidade na qual se instalou ao impor regimes de trabalho excessivos, empregando crianças e viciando os funcionários nas drogas que produziam para estimular sua produtividade vemos que as práticas da Lumon derivam da exploração e precarização do trabalhador que vinha da época da revolução industrial e que sua faceta tecnológica é apenas uma nova maneira de realizar velhas práticas.
Que Kier Egan, o mítico fundador da empresa seja mais lembrado como um filantropo caridoso e inventor brilhante ao invés de um monstro que destruiu cidades inteiras também remete a como barões industriais do século XIX, como Andrew Carnegie, que hoje é lembrado como patrono cultural e seu legado como gestor de indústrias pouco seguras que exploravam violentamente os trabalhadores é deixado de lado. O que a série aponta usando o processo de ruptura como alegoria não é algo que pode acontecer no futuro, mas processos de exploração e alienação do trabalhador que já acontecem hoje e vem acontecendo há algum tempo.
Conversando consigo
A ideia de criar um trabalhador completamente alienado do mundo que a empresa pode moldar como bem entende ignora que essas novas personalidades são também pessoas dotadas de autonomia, que podem desenvolver modos de agir e pensar até diferentes de seus externos. Helly é claramente diferente de Helena Eagan, tanto que Irv é capaz de perceber o ardil de Helena desde o início e a série é até eficiente em antever a reviravolta ao mesmo tempo que nos dá elementos para nos deixar incertos se ela virá, afinal Irv está amargurado pela perda de Burt (Christopher Walken) e talvez esteja agindo com Helly daquela maneira por ciúme da relação entre ela e Mark ao invés de movido por uma preocupação genuína de que algo está errado.
Não é apenas a Lumon, no entanto, que subestima a capacidade dos internos, com os próprios externos agindo de maneira condescendente e controladora com suas contrapartes. Dylan, por exemplo, reage com irritação ao descobrir que sua esposa beijou seu interno e que talvez goste mais dele do que de si, como se visse o interno apenas como um depósito de suas experiências de trabalho, alguém para fazer a parte chata da vida e que não precisaria ter qualquer desejo ou afeto. A carta que Dylan deixa ao seu interno no final de temporada evidencia o processo do personagem ao entender que seu interno tem sentimentos e desejos próprios, ainda que ele continue a explorar seu trabalho. Sim, porque além da Lumon, a verdade é que os externos também exploram o trabalho dos internos, colhendo os louros deles (salário, a possibilidade de aproveitar a vida) sem efetivamente fazer o serviço.
Essa ideia de exploração do interno pelo externo é visível no diálogo entre Mark e seu interno no episódio final. Na cena, os dois Mark se alternam em deixar mensagens gravadas um para o outro enquanto o Mark externo tenta convencer seu interno a resgatar Gemma da Lumon e escapar com ela. O problema é que se o interno fugir da Lumon ele deixará de existir, com Mark basicamente pedindo que seu interno se sacrifique por ele. Ao longo da conversa vemos o Mark externo adotar um tom relativamente condescendente com seu interno, considerando-o mais como uma extensão de si mesmo do que como um indivíduo autônomo, tratando-o como se ele tivesse obrigação de ajudá-lo e agindo como se os sentimentos de seu interno fossem menos importantes. Vemos isso no momento em que ele menciona os sentimentos do interno por Helly (e ainda por cima erra o nome dela) fazendo uma comparação do que o externo sentia por Gemma e tratando os sentimentos do interno como menores ou menos intensos.
É uma cena que transmite a
complexidade moral dos personagens, cada um certo ao seu modo nas escolhas que
faz, nos deixando incertos a respeito de para quem devemos torcer já que ambos
tem motivos para agirem do jeito que agem. O conflito entre os dois também
serve para construir a impactante decisão final do Mark interno em relação a
Gemma e Helly.
Falando em complexidade moral, esse segundo ano também dedica mais tempo não só a Cobel, a qual vemos que foi doutrinada desde cedo pelos Eagans, como o Sr. Milchick, que assim como os demais funcionários da Lumon é também alguém constantemente explorado e doutrinado pela empresa, aos poucos demonstrando sua frustração com o modo que seus superiores o tratam como um autômato. São subtramas que ajudam a ver mais camadas nesses personagens, evitando que eles sejam meros lacaios corporativos genéricos.
Assim, a segunda temporada de Ruptura entrega mais uma excelente
reflexão sobre exploração do trabalho e totalitarismo corporativo, expandindo
as ideias apresentadas em sua estreia.
Nota: 9/10
Trailer
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