Escrito e dirigido por Mel Brooks, Primavera para Hitler (1967) era uma divertida comédia que satirizava a indústria do entretenimento e também o nazismo. O sucesso rendeu uma adaptação para a Broadway como musical e depois o musical teatral foi levado aos cinemas neste Os Produtores (um percurso similar ao de A Pequena Loja dos Horrores) que foi lançado em 2005.
Contabilidade criativa
A narrativa acompanha o fracassado produtor de teatro Max Bialystock (Nathan Lane), longe do seu auge e que recorre a seduzir velhinhas para continuar financiando suas peças. Quando seu contador, Leo Bloom (Matthew Broderick), descobre ser possível embolsar mais dinheiro com um fracasso do que com um sucesso, eles se unem para produzir o pior musical da história de modo a sair de cartaz depois da estreia e eles poderem fugir com o dinheiro da produção. O material escolhido é uma peça nazista chamada Primavera para Hitler, um musical escrito por um ex-soldado alemão, Franz Liebkind (Will Ferrell), feito para exaltar o terceiro reich. Com um material desprezível em mãos, os dois creem ter encontrado um fracasso certo, mas a produção acaba sendo um sucesso, sendo recebida como uma sátira, criando problemas para os dois.
É uma trama que obviamente satiriza o nazismo, expondo toda a iconografia ligada a Hitler e seu regime como algo tosco, cafona e patético. Como um espetáculo bizarro que merece ser ridicularizado ao invés de temido. Quando Mel Brooks fez o filme original nos anos 60 fazer uma comédia zoando nazistas tinha algo de subversivo já em 2005, quando foi lançada a versão musical, a paisagem cultural já estava acostumada com esse tipo de sátira. A impressão é que essa versão musical foi desenvolvida para aproveitar a retomada de filmes musicais que aconteceu no início dos anos 2000. Um gênero que no final do século XX estava longe de ser o filão comercial que fora décadas antes e que experimentara um novo boom de popularidade por conta dos sucessos de produções como Moulin Rouge (2001) e de Chicago (2002).
A narrativa também satiriza a indústria do entretenimento com seus jogos de ego, estratégias escusas de financiamento e uso de “contabilidade criativa” para mover os números fazer uma produção parecer um fracasso e não precisar pagar dividendos a financiadores, diretores ou atores, uma prática que foi (e provavelmente ainda seja) muito comum em Hollywood. A relação de Byalistock e Bloom com a exuberante Ulla (Uma Thurman) mostra como produtores escalam atrizes usando beleza como critério e visando tirar vantagem delas, ainda que aqui o texto subverta o clichê da “loira burra” com Ulla sempre conseguindo exatamente o que quer dos dois, como se sua conduta fosse uma performance para manipular os dois.
Mudança dos tempos
Essa nova versão tem algumas mudanças em relação ao original. Antes o motivo da audiência achar que o musical que de Bialystock e Bloom era uma sátira se dava pelo fato de Hitler era interpretado na peça por um ator hippie que fazia o fuhrer como um bicho-grilo paz e amor. Na versão de 2005, porém, é um ator gay extremamente afeminado fazendo o ditador, o que soa como uma saída um pouco preguiçosa e sem o comentário político contracultural do original, como se ser gay fosse por si só ridículo embora eu entenda que a intenção é mais zoar a imagem construída ao redor de Hitler do que os gays. A questão é que voltar a esse filme vinte anos depois do lançamento dá a impressão de que essas piadas com sexualidade talvez tenham envelhecido mal.
Outra questão é que a narrativa soa desnecessariamente longa para sua premissa simples de uma comédia de erros, se estendendo por quase duas horas e vinte contra os enxutos noventa minutos do original. Não vi a versão de teatro e não sei se esse filme mantem todos os números do musical da Broadway ou se cortou alguns, mas fica a impressão de que algumas performances ou cenas soam redundantes, repetindo coisas que já vimos antes e que poderiam ser abreviadas ou removidas.
Nathan Lane é ótimo na personalidade canalha e trambiqueira de Bialystock, um sujeito disposto a se rebaixar a qualquer patamar, como fazer sexo com idosas ou colocar uma braçadeira nazista, para financiar seus projetos. Já Matthew Broderick faz um Bloom que se perde em excessos e acaba sendo mais irritante do que um sujeito pensado para ser adoravelmente patético. Eu sei que ser histérico é parte da personalidade de Bloom, mas Broderick passa tanto do ponto que soa artificial. É o tipo de composição que faria sentido no musical teatral já que você precisa que as pessoas nas últimas fileiras vejam sua performance e gestos muito curtos podem não ser percebidos, mas no filme soa exagerado demais.
Por outro lado, o filme é muito
bom em preservar os diálogos espirituosos e observações cáusticas do texto de
Mel Brooks, divertindo tanto pelas ironias, pelo sarcasmo e jogo de palavras
quanto pelo humor físico que Lane e Broderick executam muito bem ao lado de
coadjuvantes como Uma Thurman e Will Ferrell. Claro, não é tão bom quanto o
filme original protagonizado por Zero Mostel e Gene Wilder, mas nos permite
perceber os motivos do texto escrito por Brooks seguir despertando interesse
mesmo décadas depois.
Trailer
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