Música errante
A narrativa acompanha dois músicos que se conhecem na seleção para um laboratório musical. Kaio (Bruno Kunk) é um jovem músico que vê no laboratório a chance de finalmente poder atuar profissionalmente como músico ao invés de tocar na rua passando o chapéu. Tuca (Fernando Catatau) é um homem de meia idade que a despeito do talento nunca decolou como músico e vê no laboratório uma última chance. Enquanto aguardam o resultado da seleção, ambos perambulam pelo centro de Fortaleza conversando sobre suas experiências.
Ainda que estejam em momentos diferentes da vida, os dois se conectam pela paixão pela música e pelo que a trajetória do outro significa para si. Tuca vê em Kaio uma versão mais jovem de si, alguém que acredita nos sonhos e se impele a continuar tentando apesar de tudo, enquanto Kaio vê o que ele pode ser em Tuca, alguém que não se comprometeu artisticamente e se manteve fiel a sua música. Kaio também percebe o desânimo de Tuca, alguém que parece farto daquele universo e se esforça a instigá-lo a continuar. Essa tentativa de inspirar o colega não é apenas por se importar com ele, mas por Tuca representar o futuro de Kaio. A desistência de Tuca, de certa forma, seria para Kaio um indício de que as coisas também não dariam certo para ele.
Muito de como os personagens se sentem é expresso através de canções de modo que me pergunto se esse é um filme musical considerando que são as performances de que canto que permitem aos protagonistas externarem como se sentem e comunicarem quem são. Independente da classificação de gênero, as canções servem também para ressaltar o talento musical dos dois personagens e o filme evidencia essa habilidade em tomadas longas, com enquadramentos que mostram o manuseio dos instrumentos e explicitam que os atores estão mesmo tocando. Não conheço o bastante de música para afirmar se o que eles tocam em cena corresponde mesmo às notas que ouvimos, mas mesmo que estejam só fingindo a ilusão é bem construída.
Encontrando um caminho
Ao longo do vaguear desses personagens a narrativa nem sempre encontra soluções convincentes, em especial no momento de aparente desistência de Tuca. Sim, a trama constrói a desilusão do guitarrista, mostra como outros contemporâneos de sua idade largaram a música para sub empregos constrangedores, como o antigo colega de banda que virou locutor de loja com uma fantasia de Power Ranger, como a música impactou no relacionamento de Tuca com a ex. Toda a visão pessimista do personagem é bem construída, mas sinto que falta o desenvolvimento do gatilho específico que motiva a decisão dele.
Pelo que é narrado ao longo do filme ele já se sentia assim há algum tempo, então se ele apenas revisita sentimentos que já estão presentes precisaríamos de algo para que ele desse o passo seguinte nessa relação de amargor com a música. Sim, o evento é importante para gerar uma crise entre ele e Kaio e dar mais impacto na virada final dos dois, mas fica a impressão de que esse movimento de Tuca carece de algo para soar mais orgânico ao personagem ao invés de uma necessidade da trama.
O filme acerta, por outro lado, ao não dar soluções fáceis, sem entregar um momento de vitória inesperada que automaticamente resolveria todos os problemas de Tuca e Kaio. Ao invés disso reconhece o caminho difícil que esses personagens têm pela frente, mas como a arte é tão viva neles que mesmo diante da derrota eles não conseguem fazer outra coisa senão transformar os sentimentos em música. É um desfecho singelo que dá uma medida de esperança sem simplificar demais os vários obstáculos que construiu ao longo do filme. Com isso, Centro Ilusão é um exame agridoce sobre as dificuldades de viver da arte, mas como é quase impossível resistir ao chamado dela apesar de tudo.
Esse texto faz parte de nossa cobertura do XX Panorama Internacional Coisa de Cinema.
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