Cosmovisão nativa
É um filme focado principalmente em nos fazer entender a cosmovisão do povo yanomami. Ou seja, como eles veem o mundo, o funcionamento do universo e o que eles pensam das práticas das pessoas de fora, supostamente desenvolvidas. A produção inicia com uma longa cena de um grupo de yanomamis se deslocando por uma trilha em meio a um descampado e dá o tom para um filme que é, em essência, sobre as movimentações dessa população. Como eles se movimentam pela região e vivem com a floresta, como tentam se proteger de ataques externos e como eles se movimentam internamente em seus rituais xamânicos na busca por revelações sobre o devir e por proteção nos conflitos com os brancos.
O documentário é praticamente todo falado no idioma dos yanomamis, permitindo que eles falem sobre si em seus termos, com sua própria linguagem. As falas explicam o pensamento cosmológico dessa população, ponderando sobre a relação deles com a natureza, o funcionamento do universo e o dano causado pelos brancos ali. Nesse sentido, saltam aos ouvidos os momentos em que os entrevistados precisam usar termos em português, como capitalismo ou dinamite, fazendo o uso dessas palavras em meio a uma fala em yanomami apenas ressalta o quanto elas são alienígenas para aquele povo. Digo isso não apenas em termos semânticos, já que isso também revela como essas palavras não cabem na visão de mundo desse povo, são objetos ou estruturas sociais que não fazem sentido na lógica daquela população.
As falas são acompanhadas por imagens que mostram o cotidiano da população, exibindo não apenas o modo de pensar, como as ações do dia-a-dia da população yanomami. As imagens revelam uma vivência coletiva, focada na manutenção do grupo enquanto eles cultivam e preparam alimento, realizam seus rituais e se organizam para vigiar as incursões de garimpeiros e grileiros em seu território.
Resistência e proteção
A invasão de agressores externos nunca é explícita, não os vemos, no entanto, vemos os desdobramentos de suas ações ali. Ao longe vemos as nuvens de fumaça de queimadas, os yanomamis encontram áreas de suas plantações destruídas e caminham por áreas toscamente desmatadas. Comunicações via rádio com outras aldeias narram o adoecimento de crianças e outras pessoas por conta da contaminação do garimpo, medo de ataques e um temor constante pela vida e integridade da população conforme essa ameaçada constante paira sobre eles.
Os yanomamis, porém, não reduzidos a vítimas, muito pelo contrário. Eles são vistos como protetores, cuja resistência no enfrentamento e resiliência em manter seus costumes e visão de mundo é o que ainda mantem o equilíbrio com a natureza e evita a temida “queda do céu”. A verdade é que eles estão certos. É a presença deles ali que impede o avanço da mineração e do agronegócio predatório que traria consigo uma devastação da floresta e da biodiversidade nela contida. Uma devastação que certamente agravaria o contexto de catástrofe climática que estamos vivendo e faria acontecer a visão xamânica de tempestades agressivas, inundações e outras catástrofes que tomariam o mundo caso esses povos sejam exterminados. Esse senso de apocalipse iminente é construído pelo uso do som, que insere ruídos de ventos e tempestades em formação durante as falas reforçando o sentimento de que já estamos no ponto de virada alardeado.
É um lembrete da importância de proteger as áreas e populações de povos originários que evita a armadilha de tratá-los como coitados, permitindo que eles narrem como tudo o que está acontecendo hoje já estava previsto pela sabedoria daquele povo e como seus alertas ao longo do tempo só encontraram ouvidos surdos. Mais do que protegê-los, o filme nos convida a aprender com eles e ponderar que talvez seja hora de pensar em novos paradigmas e cosmovisões para nossa sociedade, já que as adotadas até aqui parecem nos colocar em um caminho de destruição.
Esse texto faz parte de nossa
cobertura do XX Panorama Internacional Coisa de Cinema.
Trailer
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