Feito por pessoas tanto da
Palestina quanto de Israel, Sem Chão se
debruça especificamente sobre a situação da região de Masafer Yatta na
Cisjordânia cujas vilas são constantemente destruídas por tropas israelenses
sob a justificativa de que a área é um local de treino para as forças armadas
israelenses.
Terra de ninguém
É um documentário feito sobre e
na urgência da situação, com imagens sendo captadas no momento que as tropas
chegam para remover as pessoas, derrubar as casas com resultados muitas vezes
trágicos de moradores desarmados que protestam a situação sendo baleados pelas
tropas. As imagens, muitas vezes tremidas, muitas vezes distantes ou não
devidamente enquadradas são um reflexo dessa urgência e comunicam sobre as
condições sob as quais o filme foi realizado.
Fui assistir Milton Bituca Nascimento achando que seria um documentário sobre os
bastidores de sua última turnê. Não deixa de ser sobre isso, mas a produção
aproveita o gancho de ser uma turnê de despedida do músico para refletir sobre
seu legado artístico, sobre o que torna Milton um artista tão diferenciado e as
inspirações de sua arte. O resultado é um mergulho mais abrangente e
compreensivo da arte de seu objeto do que se ele se limitasse a apenas
acompanhar bastidores da turnê, ainda que seja um documentário bem típico em
sua estrutura.
Caçador de mim
Narrado por Fernanda Montenegro,
o filme analisa a trajetória do cantor e seu impacto, mostrando como ela
repercute tanto no Brasil quanto no resto do mundo. Há uma qualidade poética no
texto da narração que tenta dar conta da força sensorial e emotiva da força de
Milton, mas o texto é também bastante didático em explicar os aspectos mais
técnicos e musicológicos do que torna sua música tão diferenciada. Nesse sentido,
a narração de Fernanda Montenegro consegue dar a medida da capacidade
expressiva da arte de Milton, de sua complexidade e de fazer a audiência
entender como é feita essa música.
Dirigido por Cao Guimarães, o
documentário Amizade funciona como um
filme-ensaio mesclando imagens de arquivo e narrações para construir um senso
de que acompanhamos o fluxo de consciência do realizador enquanto ele reflete
sobre amizade e conexões afetivas.
Alma que mora em dois corpos
O ponto de partida do filme é a
mudança do diretor para o Uruguai e durante a viagem ele capta imagens de um
dos amigos que o ajuda na mudança. Em seu novo lar ele examina imagens antigas,
registradas em diferentes mídias, para refletir sobre o papel da amizade em sua
vida. A narração do diretor ajuda a dar unidade a esses fragmentos de memória
plasmados em imagem nos mostrando essas cenas de interação entre ele e as
pessoas próximas para refletir como essas conexões e afetos são importantes em
sua vida. Sem a narração essas imagens bastante pessoais e descontextualizadas,
que provavelmente não significariam nada para alguém que não está inserido
nesse círculo de amizade.
Os Estados Unidos tem uma imensa
dívida histórica com a população indígena por conta do genocídio dos povos, da
tomada de terras, das políticas excludentes e tantas outras ações que visavam o
extermínio ou aculturação desses povos. O documentário Sugarcane: Sombras de um Colégio Interno mostra mais uma faceta
sombria desse genocídio étnico perpetrado em territórios dos EUA e do Canadá,
dessa vez com a cumplicidade da Igreja Católica.
Missão de extermínio
O documentário é focado no caso
de uma Escola Missionária localizada na reserva indígena de Sugarcane. A escola
era apenas uma dentre muitas escolas missionárias pensadas para “resolver” a
“questão indígena”. Ao longo de décadas vários bebês e crianças foram mortos
dentro da escola e dezenas de alunos internos foram abusados física e
sexualmente pelos padres que ensinavam no local.
Qual a relação entre músicos de
jazz dos Estados Unidos, processos de independência na África e um golpe de
estado no Congo durante a década de sessenta? Se esses elementos soam
desconectados, o documentário Trilha
Sonora Para um Golpe de Estado vai mostrar de maneira contundente como eles
estão interligados.
Colonialismo e neocolonialismo
O documentário parte de excursões
feitas por Louis Armstrong e sua banda a diversos países africanos ao longo das
décadas de 1950 e 1960. Nomeado “embaixador do jazz” essas viagens eram
promovidas por fundações culturais focadas da promoção da cultura negra nos EUA
e estabelecer diálogos com os países africanos. O que Armstrong e outros
músicos como Nina Simone ou Duke Ellington não sabiam é que essas instituições
eram fachada da CIA, a agência de inteligência do governo dos EUA.
É possível que você já tenha
visto alguma coisa sobre Bryan Johnson, o milionário estadunidense que está
torrando milhões da própria fortuna em métodos antienvelhecimento. Este
documentário O Homem Que Quer Viver Para
Sempre conta a história de Bryan. Poderia ser um estudo de personagem
interessante, entender o que move alguém a fazer algo tão extremo com o próprio
corpo ou mesmo trazer alguma discussão mais científica e consistente sobre o tema.
O filme não faz nada disso.
Who wants to live forever?
Centrado na figura de Bryan, o
documentário tem como fontes o próprio protagonista e pessoas que trabalham
diretamente com ele, como sua assistente de marketing. Isso torna boa parte dos
depoimentos sobre os supostos resultados que ele tem pouco confiáveis e, na
maioria dos casos, resultados como baixa de colesterol, sódio e níveis ideais
de vitaminas poderia simplesmente ser obtido com uma boa alimentação e
exercícios regulares, sem a necessidade de métodos nas bordas da ciência ou
tomar mais de cem comprimidos por dia.
Focado na luta do movimento
seringueiro do Acre, o documentário Empate
explora o passado e o presente dessa luta e da figura de Chico Mendes como
principal mobilizadora desses trabalhadores em prol da proteção das matas. O
filme acompanha algumas das principais vozes do movimento, praticamente todos
atuaram ao lado de Mendes até ele ser assassinado, para compreender como eles
se organizaram e o que vem pela frente.
Passado de luta
O filme começa com imagens de
arquivo, mostrando entrevistas de Chico Mendes enquanto ele narra a situação
com fazendeiros no Acre e a necessidade de evitar o desmatamento. O
documentário intercala imagens de arquivo com entrevistas e imagens do presente
acompanhando lideranças do movimento. É um produto de natureza mais expositiva,
que visa informar o espectador sobre quem foi Chico Mendes, a pauta do
movimento, suas conquistas e os problemas atuais da causa.
É curioso como só conhecemos
certas facetas de entes queridos depois que eles falecem. O documentário A Extraordinária Vida de Ibelin explora
esse sentimento ao contar a história de Mats Steen, um jovem norueguês que
morreu aos vinte e poucos anos por conta de uma doença muscular degenerativa.
Seus pais achavam que a vida dele tinha sido só sofrimento por conta de seus
problemas de saúde e de estar preso em uma cadeira de rodas, conseguindo mexer
apenas os dedos, mas depois de seu falecimento descobriram que ele tinha uma
enorme rede de amigos, paixões e apoiadores dentro do jogo World of Warcraft e perceberam que a vida do filho não tinha sido
tão solitária quanto pensavam ser.
Um dos atores de carreira mais
longeva e marcante na dramaturgia brasileira, Grande Otelo, nome artístico de Sebastião
Bernardes de Souza Prata, demorou para ter o devido reconhecimento. Parte disso
se deve ao racismo da época em que ele atuou, parte por sua trajetória ser
muito marcada pela comédia, um gênero muitas vezes considerado “menos artístico”
ou “menos sofisticado”. O documentário Othelo:
O Grande reconta a trajetória do ator, suas dificuldades, seus triunfos e
seu ativismo político.
Memória audiovisual
A narrativa é toda contada através
de imagens de arquivo, usando produções das quais Otelo participou e também
várias entrevistas e discursos públicos que o ator deu ao longo de sua carreira.
A pesquisa de arquivo é a principal força do filme trazendo imagens raras e em
ótima qualidade de trabalhos antigos, como o Moleque Tião ou suas comédias para
a Atlântida, que quase sempre encontramos em qualidade ruim pela internet.
A pesquisa de arquivo também é
eficiente nas falas que traz do ator, com ele trazendo desde seus
posicionamentos, denunciando o racismo ao longo de sua trajetória, narrando experiências
com diretores renomados, como a impagável fala em que conta como foi trabalhar
com Werner Herzog em Fitzcarraldo (1982),
e também refletindo sobre a natureza da dramaturgia brasileira nos palcos, no
cinema e na televisão. Há uma fala interessante de Grande Otelo sobre o Cinema
Novo em que ele pondera que o fato do movimento nunca ter atingido as massas
como almejavam seus agitadores provavelmente se relacionava com a linguagem
experimental de seus filmes, mencionando como uma produção como Macunaíma (1969) teve penetração junto
ao público justamente por ter uma linguagem mais próxima das comédias populares
de sua época.
Otelo e o cinema brasileiro
Nesse sentido, conhecer a
história de Grande Otelo é também conhecer a história do teatro e do
audiovisual brasileiro, considerando a longevidade de sua trajetória e a
amplitude de diretores e movimentos com os quais colaborou. Vemos o histórico
de racismo na dramaturgia onde até mesmo alguém da competência de Grande Otelo
tinha dificuldade em conseguir trabalho porque papéis negros eram interpretados
por brancos em blackface, algo que
Joel Zito Araújo também mostrou no documentário A Negação do Brasil (2001).
Acompanhando a trajetória de
Grande Otelo vemos a ascensão das chanchadas (não confundir com pornochanchadas)
da Atlântida em filmes como Carnaval Atlântida (1952). Testemunhamos o surgimento de diretores como Nelson
Pereira dos Santos, com quem Grande Otelo trabalhou em Rio, Zona Norte (1957) e a eclosão de vanguardas como o Cinema
Novo. Vemos o surgimento e a consolidação da televisão como meio de comunicação
de massa e sua difusão pelo país no trabalho de Grande Otelo em programas como A Escolinha do Professor Raimundo. Como
o filme nos mostra, conhecer Grande Otelo é conhecer o desenvolvimento do
audiovisual brasileiro.
Por outro lado, o documentário se
prende demais às convenções de um filme de arquivo, soando demasiadamente
expositivo e convencional para uma figura que não pode ser facilmente colocada
em caixinhas. Grande Otelo é uma figura complexa, multifacetada e bastante
singular. O filme transmite isso nas falas e depoimentos, mas fica a impressão de
que a forma, não apenas o conteúdo, poderia também ser usada para construir a
complexidade do biografado.
Mesmo nunca saindo das convenções
de um documentário de arquivo, Othelo: O
Grande envolve pela trajetória longeva do ator e como ela se mescla com o
desenvolvimento do cinema brasileiro.
Exploradores urbanos que invadem
arranha-céus e os escalam para chamar atenção existem há muito tempo, mas a
internet, redes sociais e a lógica de influencers digitais potencializaram
essas atividades ao tornar mais fácil ganhar visibilidade através delas. O
documentário Skywalkers: Uma História de
Amor conta a história de dois desses exploradores urbanos que viram nas
escaladas não apenas um meio de criarem arte, como se tornou um meio de se
encontrarem e se apaixonarem um pelo outro.
A narrativa segue os escaladores
Angela Nikolau e Ivan Beerkus, contando a história de como começaram a fazer
esse tipo de atividade e acompanhando seu maior empreendimento até então: serem
os primeiros a escalar um arranha-céu em Kuala Lumpur, Malásia, que seria o
maior da região. O início foca principalmente em Angela e como ter crescido no
circo com pais acrobatas a ensinou desde cedo a lidar com grandes alturas e
como ela se sente confortável nesses espaços, vendo-os como um lugar de
performance e não apenas como façanhas a serem alcançadas.
Baseado no livro de mesmo nome de Daniela Arbex, o
documentário Holocausto Brasileiro
foi lançado em 2016 e narra a chocante história real do hospital psiquiátrico
Colônia, localizado em Barbacena, interior de Minas Gerais. Em seus oitenta
anos de funcionamento o hospital abrigou milhares de pacientes, alguns que
sequer tinham problemas psiquiátricos, mas as condições desumanas do local
causaram a morte de mais de sessenta mil pessoas.
Estruturado ao redor de entrevistas e imagens de arquivo, o
documentário conta a história do hospital desde sua origem no início do século
XX, quando foi criado como um centro terapêutico para a elite carioca, e depois
quando se tornou um hospital psiquiátrico pertencente ao estado de Minas
Gerais. A partir daí vemos como o local se tornou um espaço de exclusão e
tormento no qual as autoridades não apenas aprisionavam pessoas com transtornos
mentais severos, mas também qualquer um que não tivesse para onde ir, como
crianças órfãs e pessoas em situação de rua. Todos os que estavam no hospital,
independente do diagnóstico, eram tratados como pacientes psiquiátricos,
recebendo uma medicação pesada e até tratamentos mais agressivos, como
eletrochoques.
Eu me lembro de acompanhar a ascensão e queda do Moviepass
enquanto acontecia. Um serviço de assinatura que lhe permitia assistir quantos
filmes quisesse nos cinemas parecia um sonho, mas desde a primeira vez que
soube do serviço ficou claro para mim que pagar dez dólares por mês para poder
assistir quantos filmes quisesse no cinema não era um modelo de negócios
sustentável para a empresa. Não à toa que em menos de um ano ela pediu falência
depois de tentar reestruturar o funcionamento do serviço sem, no entanto,
aumentar o preço. O que eu descobri ao assistir ao documentário da HBO Moviepass: A Última Sessão é que a queda
da empresa tem outras questões para além de um modelo de negócio obviamente
falho, com gestores picaretas e racismo corporativo.
Estruturalmente é um típico documentário que se desenvolve
ao redor de entrevistas e imagens de arquivo, sem muita ambição de arriscar
qualquer coisa diferente com o formato. Ainda assim, consegue manter o
espectador envolvido pelo modo como enquadra a narrativa. Seria fácil tratar a
história como simplesmente mais um negócio fracassado num período em que salas
de cinema tentam se adequar à competição com streaming e internet, porém, o roteiro encontra caminhos
interessantes para guiar a discussão, falando de preconceito e da dimensão
performática do empreendedorismo startupeiro que é tão presente na economia
atual.
O documentário “true crime” virou um filão constantemente
explorado por serviços de streaming.
Se alguns ajudam a compreender como a sociedade lida com certos eventos
extremos e as falhas nas leis ou nos órgãos que deveriam cuidar da população, a
exemplo de O Mistério de Maya (2023),
outros, como este O Que Jennifer Fez?
parecem não ter nada a oferecer que não uma exploração sensacionalista do
crime.
O documentário narra a invasão à casa de uma família de
imigrantes vietnamitas em Ontário, Canadá. Os invasores matam a mãe e o pai é
baleado e severamente ferido, ficando em coma. A filha Jennifer é a única
sobrevivente do massacre, mas parece não ter muitas informações úteis para a
polícia. De início as autoridades desconfiam que os pais dela poderiam estar
envolvidos em algo ilegal, já que é um tipo de crime incomum na região, mas
conforme a investigação avança as suspeitas passam a pairar sobre Jennifer.
Dirigido por Erroll Morris (responsável pelo seminal A Tênue Linha da Morte), o documentário O Túnel de Pombos é uma longa conversa
com o elusivo escritor de romances de espionagem John Le Carré, pseudônimo de
David Cornwell. Carré sempre foi uma figura reservada, não falando muito sobre
sua vida pessoal, seu trabalho na inteligência britânica ou suas inspirações para
seus romances, mas nesta conversa com Morris, filmada um ano antes de sua
morte, ele se abre sobre vários desses aspectos.
O filme todo é estruturado ao redor das várias conversas que
Morris filmou com Carré, sem outras fontes ou outros entrevistados além do
próprio escritor. Interessa mais a Morris ouvir Carré e inquiri-lo a respeito
de sua perspectiva pessoal acerca de sua trajetória ou das inspirações de sua
obra do que ter outros falando, inclusive porque é tão raro que o autor aceite
se abrir.
Quando falamos em música em Salvador normalmente pensamos em
axé music, mas o cenário musical da cidade é muito mais diverso que isso e o
documentário Not Dead visa falar de
uma das formas musicais que teve (e tem) uma presença na cidade que é o punk
rock. Como alguém que viveu praticamente a vida toda em Salvador, achei
interessante conhecer um aspecto da vida cultural da cidade que é pouco falado
e pouco visto nas representações midiáticas.
O filme segue um grupo de pessoas influentes no surgimento
da cena punk em Salvador nos anos 80, contando sobre a criação da loja Not
Dead, que vendia roupas e mercadorias com estética punk e servia como um espaço
para congregar a cultura punk em Salvador. A partir disso ele nos mostra como
está a cena punk hoje, as bandas que surgiram naquela época que ainda estão
ativas e como a ideologia punk transformou a vida dos envolvidos mesmo aqueles
que não seguem diretamente engajados na cena punk soteropolitana hoje.
Depois de Chuva é
Cantoria na Aldeia dos Mortos (2018) os diretores João Salaviza e Renée
Nader Messora voltam a falar sobre a população indígena Krahô no interior do
Tocantins. Em A Flor do Buriti os
realizadores focam em narrar a história de luta pela terra dessa população e
como eles resistiram a múltiplos massacres.
A narrativa vai da década de 1940 aos dias atuais, mas sem
seguir uma cronologia, acompanhando a população da Aldeia Pedra Branca no
presente e se deslocando no tempo conforme eles contam as histórias do passado
ou seus espíritos entram em contato com ancestrais no passado, misturando cenas
encenadas e personagens reais para narrar como a opressão aos indígenas sempre
foi uma constante em suas vidas.
Se filmes como Martírio
(2016) mostram anos de descaso ou políticas questionáveis da parte do Estado
brasileiro, aqui essas décadas de descaso e perseguição são apresentadas do
ponto de vista dos próprios indígenas, narrado, inclusive em sua própria
língua. O fato dos Krahô falarem seu em sua língua é uma escolha estética e
política, permite que eles se coloquem em seus próprios termos, com seu
vernáculo e com toda a construção subjetiva e visão de mundo imbricada na
própria língua.
Apesar de termos mais abertura para falar sobre isso, as discussões
sobre sexo ainda encontram tabus nos meio social. O documentário Eros visa abrir uma conversa sobre isso,
especificamente sobre o universo de motéis e o que atrai as pessoas para ir a
um motel fazer sexo.
A produção retrata diferentes casais que frequentam motéis com
filmagens feitas pelos próprios personagens. São imagens que retratam a experiências
dessas pessoas nos motéis, conversas sobre relacionamentos, sexo ou o motivo de
irem a locais como aquele com frequência e ocasionalmente até as próprias experiências
sexuais dos personagens. Com casais de diferentes idades, sexualidades e
fetiches, o filme tenta construir um panorama amplo da experiência das pessoas
em motéis ao mesmo tempo em que busca pontos comuns.
Nesse sentido, as experiências retratadas nos fazem ver o
motel como um lugar de realizar fantasias ou ter experiências que, em geral, não
podemos ter em casa já que a maioria das pessoas não pode construir uma gruta
artificial dentro de casa ou deixar o quarto todo equipado com artefatos de
sadomasoquismo, um casal praticante de BDSM chega a comentar como seria pouco
prático colocar em algum cômodo de casa os equipamentos que encontram no motel.
Lançado em 1966 e dirigido por Helena Solberg, o curta
documental A Entrevista se estrutura
ao redor de várias conversas de mulheres de classe média alta, com idades
variando entre 19 e 27 anos. Essas mulheres falam de dilemas caros à
época, como o papel da mulher na sociedade, entre o que se espera delas e o
pensamento ainda em construção sobre sexo, casamento, virgindade, formação
profissional, emancipação e outros temas do cotidiano feminino da época.
As vozes dessas mulheres estão fora de
quadro, já que elas não quiseram mostrar seus rostos ou nomes no filme. Uma
decisão compreensível considerando que em 1966 mulheres falando de sexo ou o
desejo de uma carreira eram temas relativamente tabu e serem vistas conversando
sobre isso poderia afetar a reputação das entrevistadas. Enquanto ouvimos essas
entrevistas, o filme nos mostra fotografias de diferentes mulheres e imagens de
uma mulher se preparando para seu casamento. A noiva é a cunhada da diretora,
Glória Solberg, e é a única entrevista com som sincrônico, em que vemos a
pessoa que está falando.
A memória do passado orienta nosso presente e informa nossas
decisões do futuro. Sem memória seria difícil até estabelecermos nossa
personalidade. A importância da memória na identidade pessoal e nacional é o
cerne do documentário chileno A Memória
Infinita, que indiretamente também pondera sobre o papel do audiovisual na
preservação da memória.
O filme é centrado no casal Augusto e Paulina. Eles são
casados há 25 anos e há oito Augusto descobriu que está com Alzheimer. Ambos se
preocupam com a degeneração mental de Augusto e com a eventualidade de que ele
não reconheça mais a esposa ou a si mesmo. O documentário acompanha o cotidiano
do casal e das crises causadas pela doença de Augusto e imagens de arquivo que
mostram a vida pregressa tanto de Augusto quanto de Paulina.
É tocante ver o cuidado que Paulina tem com o marido e a
paciência com a qual conversa com ele nos momentos em que ele está mais confuso
e o faz lembrar de quem é e da relação entre eles. É igualmente tocante como
Augusto volta a se apaixonar por Paulina mesmo quando não a reconhece,
revelando como o amor entre dois sobrevive até mesmo ao esquecimento.
O que muda em um país ao longo de vinte e como os problemas
sociais se transformam ao longo do tempo? Parece ser a partir dessa pergunta
que o documentário Amanhã estrutura
sua narrativa. Ele começa em 2002 filmando três crianças e as trocas entre
elas. Em Belo Horizonte a Barragem Santa Lúcia divide a cidade em duas
realidades distintas: de um lado a favela e de outro um bairro de classe média.
Os habitantes de um lado não cruzam para o outro, construindo uma espécie de
fronteira implícita que revela a separação de classes no Brasil.
Em 2002 o diretor Marcos Pimentel filma três crianças. Julia
e Christian moram no lado pobre da barragem, enquanto Zé Thomaz vive no lado de
classe média. Essas crianças passam alguns dias na casa do outro para
experimentar as realidades diferentes. Vinte anos depois o filme retoma o
contato com esses personagens e usa a vida deles como uma metonímia para as
mudanças no Brasil ao longo dessas duas décadas.